18/11/09

Vôo livre

Foi meio sem querer que eu te chamei de meu amor e você não perdoou, parou tudo e me olhou daquele jeito que me fazia encolher, mandou: repete.
Você não tinha medo de mim e isso me assustava; ao invés de correr da minha liberdade gritante me declarou peça sua sem maiores cerimônias, tudo bem simples.
Nem dor nem prazer me tocavam além da superfície, você sabia e por isso me punha no colo e ia falando devagar do que me era caro, as fantasias secretas que você adivinhava, a fragilidade protegida, a minha força incrível; um mágico tirando lenços coloridos da cartola e hipnotizando a audiência assombrada; assim me revolvia por dentro, penetrando com palavras, as mesmas que buscava em mim e me devolvia.
Então eu me sabia pequena, poeira agitada pelo vento.
Assopra-me outra vez.

Sorry, folks

Se esse blog fosse mais conhecido ganharia o prêmio "Top Pieguice Brazil".

Mais

Cortinas de fumaça, disfarces, muros de arrimo. Símbolos, regras, fantasias.

A realidade é muito dura, meu bem; na terra dos sonhos eu sou amiga do rei e tudo o mais. Compreenda, pois, e releve.

Os anos passaram; volto e pego no colo a criança assustada. Abro a porta da casinha de bonecas, olha, já não tem ninguém aqui, só a poeira te faz companhia, vem.

As crianças põem um chapéu, um laço, o sapato da mãe e acabou-se; se o paraíso está longe aqui é a praia das férias, o parque de diversões, o sítio, a casa da vovó.

A vida acaba depois da curva, logo ali, quase nem vale a pena e é mais fácil desejar as nuvens, ser nuvem, vagar e aliviar-se em chuva.

Daí o vício da palavra, a sedução das teorias complicadas, tudo recria outro eu, vaza uma sede. Querer apropriar-se da fantasia não seria, em si, fantasiar? Divago. Quero mais é tutti-frutti, todos os sabores misturados, a luz e a lama de que sou feita.

17/11/09

Quadrinhas quase infantis ou Um poema bem cafona

Dizem que é coisa de louco,
doente, maldito e escroto,
Eu vejo um pouco de todos naquele
que sofre e chora por gozo.

O moço que é tão certinho,
anda de pasta e sapato,
por baixo cueca de couro,
na pasta quem sabe o que guarda.

A tia solteira daquela família,
gorda senhora, faz macarronada,
põe de noite um espartilho
e vai dormir acorrentada.

A mocinha, tão delicada, parece que vai quebrar,
muito amorosa, risonha, uma graça,
e se entrega ao bisturi como quem parte da vida
sem nem pensar em voltar.

Na pele dela um mapa
percorre histórias sem fim,
tenta amarrá-las num traço
e tremendo as mostra pra mim.

Há o mulheraço do departamento,
Desejo de todos, sapato de ponta,
Só se derrete quando tem nas mãos
um escravo de primeira.

Castrado na alma e feminizado,
no rabo um consolo, na boca o que cala,
Ele e ela se completam,
compartilham um passado.

Cada qual com seus motivos -
conhecidos, inconscientes,
nobres ou bem repelentes -
e nem isso importa muito.

Pode ser o meu prazer
mais certo ou melhor que o seu?
Se você come catota
e aquela menina se corta,

um prefere bife fino,
o outro quer comer menino -
opa! Isso não pode;
é com bom senso que se fode.

Amor é sempre bem-vindo,
ao menos na mais pura forma:
respeita quem brinca contigo,
faz o que teu corpo aprova.

*
Dã. Mas é isso, esse blogue não é sério. Quer ler literatura? Vai na livraria C... (se eles me pagarem eu prometo que completo a frase).

E chega de rima idiota.

Das axilas

"(...)

Orto, Kalau, Celônio, os três para me abraçar, os três de relincho gordo, onde é que estás , vento, devo jogar essa farinha ao ar para que ela se transforme em alimento, vento, devo te alimentar, minha mão pequenina, mão de Agda-daninha no ventre escurecido de Kalau, na garganta de Otto, no coração de Celônio, potente implacável assim é que deve ser o cavalo-três de Agda-lacraia para que eu volte a ser o que esperas de mim, Potente Implacável Senhor que me fez assim, de trança, de azougue, de mansidão, altiva, e muito muito instável, desejando de dia umas singelíssimas alegrias e de noite um bojo de batalha, a coxa aberta e suada nesse leito de palha que me deste, tenho o outro sim, o de madeira lavrada e diminutas fileiras de rubis, mas para quem, Senhor, para quem? (...) Sei muito bem, não foi para bordar que me fizeste assim , e a cada dia construo minhas delicadas espirais, e é cada vez mais difícil entender o que expeliste um dia: Agda, constrói infinitas espirais de metal, que sejam muito maleáveis, que apenas com teu sopro se faça o movimento, e hás de ver que o de cima vai para baixo e o de baixo volta à superfície, e entenderás tudo se entenderes isso. (...)

Algumas vezes penso, Potente Implacável Senhor, que fiz muito bem quando escolhi essa morte aguçada, punhal, ponta de faca, essa morte que Otto Kalau Celônio, o meu cavalo-três, daqui a pouco vai me oferecer, os três vão jogar os ossos mágicos e a sorte vao contar que Agda deve morrer com a víscera vazada porque disso sim é que tem medo Agda, de mostrar o de dentro, tripa crucificada, o de dentro que ela ainda preserva, que não deu a ninguém, então Senhor o meu de dentro é teu, pensa com veemência tua Agda-lacraia, e isso é muito bonito, bonito dar a minha víscera para aquele que jejua há tanto tempo, porque não é sempre que se oferece o próprio medo, não é sempre que vais encontrar alguém tão a contento. E outras vezes penso, Potente Implacável Senhor, que teria sido melhor não morrer e ficar só fiando o destino das gentes e Agda-daninha às noites só cantando, que é verdade que sei melhor cantar do que morrer. E danço e canto de tal jeito que poderás até esquecer que a ti foi oferecido o meu nojo, meu medo, disso tenho ainda uma diminuta esperança... que acabarás dizendo à tua Virgem : não será melhor, minha mãe, fazermos de Agda-lacraia a semente-matriz de inquietas mulherzinhas? Porque posso ser muita coisa para te contentar. Posso chegar ao limite do ovo, ser lisa e acetinada, e ainda assim desejar, digamos, ter a ponta quadrada.

(...)"


trecho da narrativa Agda, do livro Qadós de Hilda Hilst.

12/11/09

No ar

Axilas de odores proibidos, longos pelos escorridos, atrevidas; meu olho pisca, pisca e desvia; socorro ou meu reino por sua doçura só como drama, você sabe, prece e adoração, modelar o espírito diante do símbolo, a vertigem que antecede o salto.

É também pelos símbolos que me arrepio quando me deita ao chão. Sei que vai brincar comigo e meu abandono é tão mais libertador quanto mais forte é a sua pulsão por me usar.

Ela diz que é desapego, eu digo que é uma boa meta; na hora da verdade a chave para o quarto secreto é o que mais brilha, o ninho particular; tudo símbolo e significado, o que é antigo e ancestral ali reunido, eu mesma e o que veio antes, tudo combinando, casando; você é o Cavaleiro Eleito e trouxe medalhas de honras e méritos, cicatrizes marcam sua pele e nenhuma porta fecha a sua passagem.

Podem até ser singelas, desprezadas, mal curtidas; eu vejo, meu bem, tudo isso na sombra das suas axilas.

Pequenos prazeres

PF

passeio

objeto de desejo em saia e blusa

a janela atrás do computador

sala cheia de planta

sala no caos domingueiro

09/11/09

Salgadinho

Coisas de mulherzinha, pois é.

O meu perfume favorito vai sair de linha. Rios de lágrimas e um oceano de reais empenhado numa das últimas peças do mercado. Chora, bananeira.

Por falar em bananeira, fui escolher um hidratante para a cabeleira. Rapaz, tem até hidratante de mamão, há mocinhas por aí querendo sair com o cabelo cheirando a mamão, não é incrível? Se bobear são as mesmas que usam sabonete de chocolate e hidratante de morango.

A propósito, ganhei da minha cunhada um hidratante para a pele com aroma de baunilha. Cara, que loucura, fico enjoada de um tanto que, ó, não tem remédio melhor para deixar de comer. Eu recomendo pra você que quer fechar a boca e não sabe como.

Fica rico quem lançar um creme salgado pra passar no cu, neam, porque cu doce é foda. Cuzinho sabor... palmito, que tal? Não dizem que pepino tem ação vasoconstritora? Corre, Johnson!

28/10/09

Dom de Iludir

Conversando com o Alex, eu falava das coisas que eu queria mudar em mim, algumas preferências das quais eu gostaria de me desfazer. Adorei a resposta, divido com vocês. É um post do blog dele, que eu recomendo.


Coisas que Não Entendo: Fazer o Que Não se Gosta


Eu odeio cerveja. Ocasionalmente, até dou uma provada pra ver se é mesmo tão ruim assim. É.

Sempre que eu falo isso, alguém responde: eu também era assim. Mas tanto bebi que acostumei.

Meu deus, que mundo é esse? Será que eu e essa pessoa somos da mesma espécie?

Se você não gosta de alguma coisa, por que ficar insistindo até gostar? Com tanta coisa que você deve gostar, por que tomar algo que não gosta? E já que é pra tomar forçado uma coisa que você não gosta, por que logo cerveja? Experimente beber urina, comer merda às garfadas, sei lá.

Com o tempo, você se acostuma. Daqui a pouco, está lambendo os beiços e pedindo bis.

Pequena

Pena, o link que eu tinha como endereço de origem desta imagem não funciona mais. Era de uma moça que fazia lindos postais.

*
Mudando e não mudando de assunto, o endereço do meu fornecedor de carnes para feijoada não funciona mais. O real. Uma bosta. Ele era bom e gostava de mim. O endereço do sapateiro também não funciona mais. Acho que morreu, o velhinho. Ele olhava os meus sapatos e dizia:
_ Que bela porcaria, hein?
_ Um Fernando Pires!
_ Bela porcaria.

Era ótimo, esse tiozinho. Encantadoramente mau humorado. Um fofo.

Odeio perder bons fornecedores. Até choro. Muito chato.

Pobre Pitágoras

Você deve pensar que eu sou maluca, cheia de neuroses, delírios, desassossegos, e, bingo, você acertou. As unhas são poucas para tanta parede a arranhar mas babo mansa quando meu nome dança em tua boca e esperar por aquilo que talvez nunca venha é ainda a minha melhor perspectiva; traço rotas de um ponto de fuga a outro pois já me fiz ao mar tantas vezes que não posso ocultar a verdade: a linha do horizonte é intangível, o meu caminho a paralela de excessão que nunca encontrará a tua, o infinito só existe em mim e em mim você não está. Não te prendo nem perdoo, o respeito é a grama sobre a qual um dia nos amamos, prefiro te ver correndo enquanto fico a escarafunchar minhocas, os seres subterrâneos, a terra úmida que me refresca a pele febril; porca-mãe obstinada, vaca sagrada a regurgitar, quanto mais surreal mais etérea e assim seja, bastam-me minhas próprias raízes, âncoras-grades que moldei passional, para ti um sonho que acaba à luz do sol.

*

Mais um texto velho que vem morar aqui. Paralelas, pontos de fuga. Sempre fui mal em geometria.

22/10/09

Ainda

Ontem


Até hoje perplexo
ante o que murchou
e não eram pétalas.

De como este banco
não reteve forma,
cor ou lembrança.

Nem esta árvore
balança o galho
que balançava.

Tudo foi breve
e definitivo.
Eis está gravado

não no ar, em mim,
que por minha vez
escrevo, dissipo.



Drummond, A Rosa do Povo

20/10/09

Outra unção

Asco, no mato a carcaça um enxame de vermes. A lesma lenta rasteja na folha ao lado, gosma untuosa, tão frágil, derrete sob o sal. Frágeis e infinitos são os vermes.

Rasteja também lenta, untuosa e infinita, minha boca sobre ti. Frágil, não. Antes fulgor redivivo, o sobrevivente. Sempre a língua úmida, a palavra amorosa, a saliva que se renova como se do nada.

Fria é a noite no deserto, fria e lenta, como a lesma.

O vento traz cheiros de restos.

15/10/09

à toa

Cresci ouvindo dizer que filho dá trabalho. Eu digo brincando que é um trabalhinho de merda com um puta de um salário, mas às vezes a verdade é bem outra.

Essa moça é psicóloga, pedagoga, trabalhou anos com crianças até decidir ter filhos, hoje um casal de 2 e 5 anos. Aos poucos vai me contando dos momentos em que se chegava à janela da área de serviço para chorar sozinha, perdida e impotente diante das crises de choro e agressividade dos pequenos.

Eu achava que o trabalho que os filhos davam era essa coisa de dar comida, limpar a bunda, levar para lá e para cá. Não sabia do trabalho invisível, o embate emocional constante, a vigília ininterrupta. Discutir pela milésima vez com um ser de três anos para poder escovar-lhe os dentes. O medo da janela, da doença, da maldade. A frustração diante das próprias falhas, incompetências que se revelam. Bumbos e sambalelês na sua manhã de ressaca. Elencar prioridades preterindo as suas em favor das deles. Longa lista.

O buffet infantil é uma provação à parte. Da primeira vez saí tonta, exausta, bestificada. Quanto barulho, quantas luzes piscantes, quantas e quantas vezes ajudar a subir e descer de brinquedos, quantas crianças gritando, quanto refrigerante sem gelo e salgadinho gordurento. Talvez a moçada das raves se dê melhor nesta luta, eu demorei a me recuperar.

Na segunda vez fui enquadrada na mesa dos pais da escola, que me cumprimentam e continuam a conversa:
_ O último encontro de casais foi maravilhoso.
_ Que delícia! Qual igreja vocês frequentam?

Assisto calada. As mães comentam que este não quer comer verdura, aquele morde o irmãozinho e por aí afora. Já estou escolada, faço disto uma prova de amor e como em casa antes de ir. O resto é uma sequência de suspiros.

Mas depois de tudo isso tem um bichinho me esperando de manhã, abraçado a muitos bichinhos de pelúcia, os olhos transbordantes de amor, os cabelos bagunçados. Ai, ai, então tá.
_ Vem, bichinho, dá aqui um abração.

13/10/09

Oiaboia

Esqueci de postar a bóia-destaque da semana passada - lembrando que aqui só valem receitas facinhas, na esperança de que meu irmão um dia descubra o meu blogue e pare de me servir peixe com mingau de maracujá.

Apesar da alcachofra da Clara ter ficado bem gostosa, o que eu mais curti na semana passada foi a carninha com moyashi. Fácil, fácil, zipt, zapt, zum.

Para 4 pessoas

1 col. sobremesa de óleo de canola
3 dentes de alho picadinhos
3 cm de gengibre ralado
600 g de filé mignon em tirinhas (ou outra carne macia, alcatra, por ex.)
2 cebolas médias em tirinhas
400 g de moyashi
pitada mínima de sal
aji no moto (opcional)
1 1/2 col chá de amido de milho
2 col chá de açúcar
100 ml shoyu
50 ml água
óleo de gergelim (opcional)

Refogue o alho e o gengibre, junte a carne. Refogue 2 minutos, salpique um nada de sal e junte a cebola. Refogue mais 2 minutos, junte o moyashi, misture e salpique o amido de milho e o açúcar, misture, junte o shoyu e a água, misture e tire do fogo quando levantar fervura. Gotas de óleo de gergelim, arroz e legumes al dente do lado e um abraço.